quarta-feira, 1 de abril de 2009

O que é um carnavalesco?

O carioca Luiz Fernando Reis fez uma reflexão interessante sobre a figura do carnavalesco no site SRZD Carnavalesco, onde é colunista.
Luiz Fernando, que se notabilizou pela criação dos desfiles irreverentes da Caprichosos de Pilares na década de 80 e também passou por Salgueiro, União da Ilha e Imperatriz Leopoldinense, esteve no carnaval de Porto Alegre em 2009, participando da criação do desfile do Império da Zona Norte.
Seguindo a sugestão de um Samblogueiro, vamos reproduzir aqui no Samblog o texto de Luiz Fernando Reis sobre o carnavalesco, um dos principais artistas do maior espetáculo da terra.

Com o troca-troca de profissionais quase terminando já podemos conversar um pouco sobre o próximo carnaval, mas antes vou dar algumas colocações muito pessoais sobre algumas funções profissionais de nosso carnaval.
Começo por uma das funções mais importantes em nossa festa maior, tão importante que dá nome a esse site, o Carnavalesco. O que é um carnavalesco? Vou tentar desmistificar esse conceito de carnavalesco. Ele não precisa ser obrigatoriamente homossexual, afinal, talento nunca teve sexualidade. Um carnavalesco não precisa, obrigatoriamente, saber desenhar, mas, com certeza, ele precisa ter criatividade, bom gosto e um bom conhecimento geral de arte. Max Lopes e João Jorge Trinta nunca desenharam, mas cada fantasia e cada elemento alegórico que desfilou em cada um de seus carnavais foi por eles criado, desenvolvido e aprovado.
Um carnavalesco não precisa ser aderecista, pintor, estilista ou escultor, mas ele precisa de ter a visão geral de todo o processo de confecção de um carnaval. Um carnavalesco não precisa ser letrado e formado nisso ou naquilo, mas ele precisa para que seu trabalho tenha êxito de uma visão cultural abrangente. Não basta apenas uma pesquisa no Google da vida e nas enciclopédias escolares para se desenvolver um carnaval. É preciso bem mais que isso. É necessário muito embasamento cultural, que sabemos nem sempre se aprende nas salas de aula. Além disso, é importante gostar muito de carnaval.
Nem coloco a questão da cultura pensando na confecção das sinopses, já que muitas escolas contam com profissionais para essa função. Penso na cultura geral como desenvolvedora de um enredo, do que dele se aproveitar plasticamente, o que será ala e fantasia, o que será escultura, adereço e alegoria, o que do enredo podemos projetar para um samba-enredo que seja abrangente, melódico, poético e que possa acrescentar a uma bela obra musical.
E falo essas coisas, pois tenho percebido em alguns de nossos dirigentes muito pouco conhecimento do que é a figura do carnavalesco. Não basta dar pinta para ser carnavalesco. Não basta apenas saber desenhar para ser um carnavalesco. Não basta ser um aderecista e conhecer tudo de barracão e já se considerar apto a ocupar a função de carnavalesco. A Mocidade errou ao considerar o excelente aderecista Cláudio Cebola apto a tocar um projeto para uma escola do tamanho da Mocidade Independente. Tenho receio se dois homens de barracão, excelentes profissionais em suas áreas, não se assustem com a responsabilidade de colocar a Unidos do Viradouro em 2010 na Sapucaí. O mesmo receio sinto ao ver meu amigo e Rei Momo eterno, mas ainda inexperiente Alex de Oliveira e o talentoso projetista Amauri Santos com a missão de conduzir os destinos plásticos da gigantesca Portela para o desfile de 2010.
O aprendizado de um carnavalesco acontece quase sempre nos grupos de acesso. É por lá que o profissional-carnavalesco conhece as dificuldades de se colocar um carnaval na avenida e nesse processo ele vai aprendendo e crescendo profissionalmente e um dia, numa processo quase natural, os dirigentes das escolas do Grupo Especial percebem talento e qualidade naquele artista e o convocam para fazer parte do seleto quadro de carnavalesco Especial. Assim foi como o Alex de Souza que começou como desenhista do Renato Lage e procurou nas escolas de baixo seu espaço e ralou muito até ser um carnavalesco especial.
Paulo Barros e Paulo Menezes seguiram esse mesmo caminho de dificuldades e aprendizado até chegarem ao reconhecimento especial. Vou citar um nome que já desponta como uma grata revelação e vem seguindo o mesmo caminho. Fábio Ricardo, carnavalesco da Rocinha, e por muitos anos assistente do Max Lopes está batalhando numa escola do Acesso e já tem o seu talento lembrado por escolas do Especial.
Mas o carnavalesco, apesar de sua fundamental participação não é o único profissional de um carnaval. Ele precisa estar bem assessorado, com assistentes e compreender que um projeto de carnaval tem em sua figura o grande responsável plástico, mas não é apenas ele o grande nome de um desfile. Um carnaval não é, nunca foi e nunca será um projeto pessoal de um artista. Em torno dele existem vários outros profissionais com o mesma intenção de fazer um grande carnaval.

Na próxima matéria falo do profissional diretor de carnaval, que é tão importante como o carnavalesco numa escola de samba.

Um abraço Luiz Fernando Reis

Publicado originalmente no site SRZD Carnavalesco

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